Os números das duas últimas rodadas da pesquisa Genial/Quaest mostram uma mudança significativa no cenário. Em abril, quando deixou a Prefeitura do Recife para disputar o governo estadual, João Campos aparecia na liderança, com 46% das intenções de voto, contra 38% de Raquel Lyra.
No fim de julho, o cenário já havia mudado. Raquel passou a liderar com 43%, enquanto João registrava 37%. Na pesquisa mais recente, divulgada no fim de agosto, a governadora ampliou a vantagem e chegou a 44%, contra 36% do socialista.
A virada ocorre ao mesmo tempo em que a avaliação do governo Raquel Lyra apresentou uma melhora expressiva. Em agosto de 2025, a governadora registrava aproximadamente 45% de desaprovação, um dos piores índices de sua gestão. No levantamento mais recente, porém, ela aparece com 68% de aprovação e apenas 24% de desaprovação.
Obras, presença no interior e estratégia política
Para os cientistas políticos Ricardo Ismael, professor da PUC-Rio, e Ernani Carvalho, professor do Departamento de Ciência Política da Universidade Federal de Pernambuco (UFPE), a mudança no cenário eleitoral não pode ser atribuída a apenas um fator.
Entre os elementos apontados estão o desempenho administrativo de Raquel, a intensificação de obras e investimentos, a presença política da governadora nos municípios, a saída de João Campos da Prefeitura do Recife e a estratégia de alianças construída ao longo dos últimos meses.
Na avaliação de Ismael, Raquel conseguiu transformar a agenda administrativa em uma estratégia eleitoral, ampliando a presença no Estado e fortalecendo sua comunicação política.
A governadora passou a intensificar a agenda de obras, inaugurações, anúncios de investimentos e visitas aos municípios, aumentando sua exposição principalmente no interior. A estratégia também teria contribuído para reduzir a vantagem que João Campos possuía em determinadas regiões.
Já Ernani Carvalho avalia que a melhora de Raquel é resultado de um processo mais longo de reorganização política e administrativa. Segundo ele, investimentos estruturados anteriormente começaram a aparecer de forma mais concreta para a população, contribuindo para melhorar a percepção sobre a gestão estadual.
Saída de João da Prefeitura pesa na disputa
Outro ponto destacado pelos especialistas é a diferença de posição entre os dois principais candidatos.
João Campos deixou a Prefeitura do Recife em abril para disputar o governo. Com isso, perdeu a visibilidade institucional proporcionada pelo comando da capital pernambucana. Raquel, por sua vez, permaneceu no cargo de governadora e passou a utilizar a estrutura institucional e a agenda administrativa como importantes vitrines políticas.
A Região Metropolitana do Recife continua sendo uma área de força de João Campos, especialmente pelo desempenho de sua gestão à frente da capital. Raquel, entretanto, ampliou sua presença no Agreste e no Sertão e fortaleceu uma rede de apoio junto a prefeitos e lideranças municipais.
Essa disputa territorial pode ser decisiva para o resultado final, principalmente se a governadora conseguir manter sua vantagem no interior e reduzir a diferença para João na Região Metropolitana.
Lula pode mudar o cenário
Apesar da vantagem de Raquel Lyra, o fator Lula ainda pode provocar mudanças na disputa.
O presidente mantém forte influência política em Pernambuco e no Nordeste. João Campos conta com a aliança entre PSB e PT e aposta na associação de sua candidatura ao presidente.
Raquel, por outro lado, mantém uma relação institucional com Lula e não tem adotado uma postura de confronto com o governo federal. Essa situação permite que a governadora dialogue também com parte do eleitorado lulista.
Para os especialistas, a principal questão neste momento não é apenas saber se Lula apoiará João Campos, mas qual será o tamanho e a intensidade desse apoio durante a campanha.
Uma participação mais forte do presidente poderia aumentar a polarização da disputa e alterar o atual equilíbrio de forças. Ao mesmo tempo, Lula também precisará considerar a relação institucional com Raquel e o peso político da governadora em Pernambuco.
Eleição ainda está aberta
Apesar da liderança de Raquel Lyra, os números não significam que a eleição esteja definida.
A pesquisa mostra que 72% dos eleitores afirmam estar convictos da escolha, enquanto 27% ainda admitem mudar de voto. Com a campanha avançando, debates, propaganda eleitoral, alianças e eventuais fatos novos podem alterar novamente o cenário.
Uma denúncia, um erro estratégico, uma mudança na avaliação dos governos ou um desempenho considerado positivo de um dos candidatos pode influenciar a decisão do eleitor.
Por isso, embora Raquel tenha conseguido transformar uma desvantagem inicial em liderança e apareça atualmente como favorita, João Campos ainda possui espaço para reagir.
O cenário, portanto, aponta para uma disputa mais equilibrada e estratégica, na qual o peso de Lula, a força eleitoral da Região Metropolitana e a presença de Raquel no interior deverão ser determinantes para definir quem chegará em vantagem à reta final da eleição.

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