Mas o que era para ser celebração acabou mergulhado em controvérsia.
Da exaltação à provocação na Sapucaí
Na abertura do primeiro dia de desfiles no carnaval deste ano, a homenagem ao presidente ultrapassou os limites da narrativa biográfica e enveredou pelo terreno da provocação política. Se a intenção era apresentá-lo, aos 80 anos, como herói da resistência democrática e líder popular, os elementos críticos e satíricos acabaram dominando a cena.
A representação do ex-presidente Jair Bolsonaro como “palhaço Bozo”, inclusive em versão caricata e algemada, dividiu opiniões. O ex-presidente Michel Temer também foi retratado como golpista pelo impeachment de Dilma Rousseff. Em outra ala, fantasias sob o título “neoconservadores em conserva” ironizavam a chamada família tradicional.
A volta de Lula ao Palácio do Planalto, em 2023, que poderia ter sido o ponto alto da narrativa, perdeu protagonismo diante do tom satírico e confrontacional adotado no desfile.
Reações políticas e eleitorais
A pergunta ecoou entre comentaristas e lideranças políticas: o que Lula ganhou com o desfile?
Nem mesmo o PT se lançou com vigor na defesa pública da homenagem. O deputado Lindbergh Farias buscou contra-atacar ao acionar o TSE contra adversários políticos, mas o debate já havia se deslocado para outro campo: o possível impacto eleitoral negativo.
A ex-primeira-dama Michelle Bolsonaro, com forte influência entre mulheres evangélicas, criticou o que chamou de escárnio à fé cristã. Nas redes sociais, católicos e evangélicos compartilharam imagens em protesto contra as alas consideradas ofensivas.
Enquanto isso, Lula vinha ensaiando aproximação com o MDB, inclusive sinalizando a possibilidade de oferecer a vaga de vice. O presidente nacional da legenda, Baleia Rossi, já havia deixado claro que ataques a lideranças históricas do partido, como Temer, não seriam tolerados. O episódio do carnaval tende a tensionar ainda mais essa articulação.
Judicialização e risco de punições
A escola Acadêmicos de Niterói acabou rebaixada, ampliando o desgaste. Partidos como PL e Novo acionaram o TSE, alegando propaganda antecipada e pedindo apuração sobre as contas da agremiação. Também questionam encontros prévios entre dirigentes da escola e o presidente no Planalto.
A ministra Cármen Lúcia já havia advertido que o carnaval não pode servir de salvo-conduto para ilícitos eleitorais. Em julgamento recente, o TSE reafirmou que eventos populares com conotação eleitoral podem configurar propaganda extemporânea.
Novas ações judiciais são esperadas, e o episódio pode ganhar desdobramentos ao longo do calendário eleitoral.
Tiro no pé?
Para a cientista política Priscila Lapa, a homenagem “acendeu diversas polêmicas” e teve efeito limitado junto aos já apoiadores do presidente, mas ofereceu munição aos adversários. Em um cenário pré-eleitoral sensível, qualquer erro pode custar caro.
Pesquisa do instituto Real Time Big Data, divulgada após o desfile, apontou que 62% dos entrevistados consideraram a apresentação propaganda antecipada, enquanto 38% discordaram. Em uma eleição potencialmente decidida por margem apertada, números assim acendem sinal de alerta.
Lula tornou-se o primeiro presidente a ser homenageado em vida por uma escola de samba no carnaval carioca. A ousadia, no entanto, não produziu o efeito esperado. Para aliados, faltou estratégia. Para críticos, sobrou provocação. No fim das contas, o que poderia ser consagração popular transformou-se em um episódio de desgaste político — talvez desnecessário — em pleno ano pré-eleitoral.

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