ÉPOCA
Antes de oficializar-se candidato a presidente da República, em 2018, Jair Bolsonaro tinha uma resposta pronta quando lhe perguntavam se achava que, ao entrar na disputa, venceria. Dizia que seria eleito caso conseguisse superar o obstáculo das “urnas eletrônicas fraudadas” e se o “sistema” não o impedisse. Considerava as ações contra ele que tramitavam no Supremo Tribunal Federal (STF), por injúria e apologia ao estupro, subterfúgios do “sistema” para tirá-lo do pleito. Acreditava, num certo ranço conspiratório, que havia um plano para ceifar sua vitória. Vítima de uma facada em setembro do ano passado, Bolsonaro se elegeu sem fraude nas urnas e se livrou das ações no STF. Não imaginou, entretanto, chegar aos 100 dias de governo, a serem completados no dia 10, tendo corroído parte considerável do capital político de quase 60 milhões de votos e do exército de mais de 20 milhões de seguidores nas redes sociais. Teorias conspiratórias à parte, o presidente tem se mostrado o maior obstáculo para o sucesso do próprio mandato.
Num mimetismo da gestão de Donald Trump nos Estados Unidos, o presidente brasileiro tem buscado governar com base em duas premissas: não recuar em promessas de campanha e decidir mediante a opinião de sua base virtual. Bolsonaro tem tentado, dentro das limitações impostas pela democracia, acalentar os anseios de seus eleitores mais fanáticos — aqueles que chancelam a liberação das armas, elogiam o golpe de 1964, possuem aversão à política e à imprensa, enxergam que o Brasil (e o mundo) é alvo de uma investida comunista e irrigam o intelecto por meio da obra de Olavo de Carvalho. Para isso, nos primeiros três meses de governo, baixou um decreto simplificando a licença para a compra de armas, determinou a celebração do golpe militar, fez elogios públicos a ditadores, alçou Olavo de Carvalho ao posto de conselheiro informal de seu governo e, sob essa premissa, permitiu que o ideólogo tumultuasse o Ministério da Educação, que passou a ser loteado entre seus alunos, admiradores e indicados, incluindo o próprio ministro Ricardo Vélez Rodríguez. O MEC está no epicentro de uma briga fratricida entre autodenominados olavetes, que, agora, testam as dores de seu primeiro contato com o poder.
No intuito de agradar a sua base virtual, o presidente tem usado o Twitter como arma de fogo. Num rosário de iniciativas que causaram polêmica, compartilhou vídeo escatológico criticando o Carnaval, pediu que o ministro Sergio Moro recuasse da nomeação de uma especialista em segurança pública porque seus seguidores a consideravam “esquerdista” e publicou um texto com informação falsa sobre uma jornalista de O Estado de S. Paulo. Seu filho vereador, Carlos, foi o grande articulador do comportamento do pai nas redes, indicando as reações que ele deveria exibir e, em muitos casos, fazendo postagens nos perfis de Jair Bolsonaro. Carlos também passou a coordenar as redes sociais de aliados, como o deputado Hélio Lopes (PSL-RJ), o Hélio Negão, amigo de seu pai. O vereador instalou no gabinete do deputado fluminense, com um salário de R$ 5 mil, o fotógrafo Guilherme Julian, que comandava o movimento Endireita Fortaleza, no Ceará. Julian é pago com a verba de gabinete de Lopes para gerenciar perfis de apoio a Bolsonaro nas redes. É, hoje, considerado braço direito de Carlos nesse trabalho.
01.01
– Jair Bolsonaro toma posse como presidente do Brasil
– O novo presidente eleva o salário mínimo para R$ 998 e extingue o Ministério do Trabalho
02.01
– Bolsonaro decide transferir para o Ministério da Agricultura a demarcação de terras indígenas
04.01
– O presidente diz que vai diminuir a alíquota máxima do IR e aumentar a alíquota do IOF. No mesmo dia, é desmentido pelo secretário especial da Receita Federal, Marcos Cintra
08.01
– O Brasil sai do Pacto Global sobre Migração, acordo assinado por mais de 160 países
09.01
– O presidente da Apex, Alecxandro Pinho Carreiro, pede demissão e se torna a primeira baixa do governo
15.01
– Bolsonaro assina decreto que flexibiliza o porte de armas
No campo político, mesmo integrando o maior partido da Câmara dos Deputados, o PSL, Bolsonaro não conseguiu arregimentar uma base consolidada para seu governo. A mesma boa vontade demonstrada com os aliados de Olavo de Carvalho, que ganharam cargos no Palácio do Planalto e no MEC, não foi percebida em relação aos colegas de partido e às bancadas que até pouco tempo atrás defendiam o presidente, como a evangélica, que compõe boa parte do chamado “centrão”. Temendo cair na vala comum do “toma lá dá cá”, o presidente passou os três primeiros meses se negando a entregar parte da Esplanada aos partidos em troca de votos para a aprovação da reforma da Previdência. O pastor Marco Feliciano (Podemos-SP), apoiador de primeira ordem de Bolsonaro, foi às redes sociais criticar a falta de interlocução com o presidente. Delegado Waldir, líder do próprio PSL na Câmara, também. “Não tem base. O governo vai ter de construir. O que existe é uma pacificação de que a reforma tem de avançar. E aí é papel do governo, não meu”, disse o líder. Um deputado do PSL disse que o partido não quer o loteamento do governo, mas sim participar das tomadas de decisão. “O deputado do PSL não nasceu para ser parlamentar. Ele quer ser governo. Quer ser recebido pelo presidente, quer receber missões para cumprir. Quer ser bem tratado”, resumiu.
Os primeiros 100 dias de um governo costumam ser marcados pela chamada “lua de mel” com o Congresso, o mercado e o setor produtivo. Exceto no segundo mandato de Dilma Rousseff, em que um abismo entre o Palácio do Planalto e o parlamento foi aberto desde o primeiro dia de expediente, tal regra tem sido cumprida com razoável continuidade pelos presidentes eleitos após a redemocratização. Nesse aspecto, a experiência recente de Bolsonaro tem maior relação com Dilma do que com os demais antecessores. A reforma da Previdência, considerada pauta prioritária do governo, foi pessoalmente entregue pelo presidente ao Congresso em 20 de fevereiro. O mercado celebrou com a Bolsa de Valores ultrapassando 100 mil pontos e o dólar em franca desvalorização.
17.01
– Flávio Bolsonaro, filho mais velho do presidente, se vale do foro privilegiado e pede ao STF a anulação de investigação contra ex-assessor
18.01
– Bolsonaro assina medida provisória determinando pente-fino no INSS
– Coaf afirma que Flávio Bolsonaro recebeu 48 depósitos suspeitos em um único mês
22.01
– A elite financeira critica o rápido discurso de Bolsonaro durante o Fórum Econômico Mundial, em Davos
– O presidente anuncia que o Brasil permanecerá no Acordo de Paris
23.01
– Em referência ao caso Queiroz, o presidente diz que Flávio terá de pagar se for provado que cometeu algum errou
24.01
– O governo muda o texto da Lei de Acesso à Informação e amplia o número de autoridades que podem classificar um documento como secreto ou ultrassecreto
28.01
– Bolsonaro dificulta o acesso a benefícios do INSS para quem voltou a contribuir depois de um período na informalidade
Parecia um encaixe perfeito: o ministro da Economia, Paulo Guedes, tinha chancela presidencial para trabalhar a reforma, o presidente da Câmara, Rodrigo Maia, é um defensor público do tema e o partido do presidente é o mais numeroso do parlamento, o que, em tese, lhe garante liderança na hora de convencer as demais siglas a aderir ao projeto. Para arrematar, em uma investida capitaneada pelo ministro da Casa Civil, Onyx Lorenzoni, o governo conseguiu impedir a eleição de Renan Calheiros à presidência do Senado e emplacar um nome aliado: Davi Alcolumbre (DEM-AP). Mas a falta de uma liderança forte no PSL e a aversão de Bolsonaro à política, aliada a sua inexperiência em lidar com a formação de uma coalizão, terminaram por criar um problema onde tudo indicava solução. O presidente se negou a receber líderes de partidos para discutir o apoio, fechou as portas para indicações de cargos e arrematou que não entendia a “aproximação” buscada pelos parlamentares. “Que aproximação é essa? Eu não posso atender a quantidade de pessoas, de parlamentares, sem falar de governadores e prefeitos que querem conversar comigo”, disse.

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