O Globo
Março chegou com chuva ao sertão da Bahia. Riachos mortos nos últimos sete anos voltaram à vida. Desceram em enxurrada as serras da Chapada Velha, atravessaram a caatinga e deram um fio de esperança à Mãe dos Pobres do São Francisco, a Lagoa de Itaparica. Considerada a mais importante da Bacia do São Francisco, por ser o seu maior berçário natural de peixes, uma “criadeira”, ela se tornou um dos símbolos de sua degradação. No ano passado, Itaparica secou completamente e deixou sem renda cerca de dois mil pescadores.
A seca de 2012-17 foi o golpe de misericórdia num paraíso em agonia. Situada entre os municípios de Xique-Xique e Gentio do Ouro, num dos pontos mais áridos do semiárido baiano, a Lagoa de Itaparica era um oásis de águas cristalinas num lugar onde modernidade e passado se encontram, mas não se misturam. Um mundo de comunidades tradicionais de pescadores e rezadeiras, florestas de palmeiras ainda selvagens e torres de alguns dos parques eólicos com maior tecnologia e potencial do Brasil.
— Aqui, viver é perigoso, afirma Edmar Oliveira Filho, 69 anos, armado com uma espingarda de um tiro só, ao se embrenhar atrás de seu pequeno rebanho de cabras na floresta formada apenas por carnaúbas, às margens do leito seco da Lagoa de Itaparica.
Seu Edmar nunca ouviu falar de Guimarães Rosa, mas pronuncia por experiência própria uma das frases mais célebres de “Grande sertão: veredas”, obra-prima da literatura. O sertão do seu Edmar é coberto por um labirinto de carnaúbas, em permanente verde, mesmo no auge da estiagem. Ainda há nessa mata onças-pardas, pacas, caititus (porcos do mato), veados, tatus e, sobretudo, jumentos abandonados que se tornaram selvagens. O carnaubal cobre 90% dos 78.450 hectares da APA da Lagoa de Itaparica _ é cerca de 20 vezes maior do que o Parque Nacional da Tijuca, por exemplo.
Ele mora no povoado de Jacu, em Xique-Xique. Já viveu da pesca. Hoje, com a mulher, sobrevive da aposentadoria rural e insiste em plantar a mandioca “que não vinga”. Os jacus que dão nome ao povoado se tornaram raros. Já mergulhões, marrecas e patos selvagens, gaivotas, tuiuiús, maçaricos e outras dezenas de espécies de aves que se reuniam aos milhares para se alimentar e fazer ninhos à volta da lagoa se foram com as águas.
Composta por uma só rua com chão de areia branca, a comunidade de pescadores ficava à beira d’água. Agora, se debruça sobre um campo de areia e mussambê, um arbusto nativo dos brejos do sertão, capaz de sobreviver em restos de umidade.
Com cerca de 24 quilômetros de extensão e 2.400 hectares de espelho d’água quando cheia (ou 11 vezes maior do que a Lagoa Rodrigo de Freitas), Itaparica era o que havia de mais próximo do cenário observado por Von Martius e Spix, os naturalistas alemães cuja obra está na essência do conhecimento da flora e da fauna do Brasil. Há 199 anos, ao descrever as lagoas marginais do São Francisco, relataram terem sido “transportados a um país inteiramente diverso. Em vez de matas secas, desfolhadas ou de campos de alto sertão, vimo-nos de todos os lados cercados de matas virentes, que orlavam extensas lagoas piscosas”.
Itaparica tinha surubins e dourados nativos do São Francisco, curimatãs, matrinxãs, mandis, piranhas, traíras, piaus e o hoje raríssimo piau. Os peixes vindos do São Francisco entravam na lagoa para desovar. Os alevinos nasciam, se criavam ali e voltavam ao rio quando adultos. Esse ciclo por séculos sustentou a pesca na bacia do São Francisco. A denominação de Mãe dos Pobres ou da Pobreza vem da antiga fartura de peixes, garantia de alimento de qualidade aos pescadores e suas famílias.
Nesta Sexta-Feira Santa, o peixe da tradição cristã virá da Argentina e do Mato Grosso, conta Marcelo Marques Santana, 38 anos, “desde sempre pescador de Itaparica”. Sem água na lagoa para ter o que pescar, pescadores que como ele, “que não conhecem outra vida”, se tornaram vendedores de pescado trazido de longe.
Vanderlei Pinheiro, engenheiro de pesca e analista ambiental do Ibama, dedicou 43 de seus 67 anos ao serviço do meio ambiente no São Francisco. Ele assegura que não há registro de seca tão grave da lagoa. Pesca predatória, aterro e desmatamento das margens, assoreamento de rios, destruição de nascentes, perfuração excessiva de poços que consomem o raso lençol freático e extração ilegal de areia destroem a Lagoa de Itaparica há pelo menos quatro décadas.
Segundo Pinheiro, a lagoa chegava a quatro metros de profundidade, mas nos últimos anos alcançava no máximo um metro. Até secar completamente, em agosto passado, vivia em eterno sinal vermelho. Na região, no semiárido do norte baiano, chove em média 600 milímetros por ano. Já a taxa de evaporação é de 2.200 milímetros. A pequena profundidade faz que a evaporação seja mais rápida. “No semiárido, chove de baixo para cima”, diz Pinheiro.
— Quem matou Itaparica foi o homem. Se o mau uso continuar, mesmo que volte um pouco de água, não haverá mais o paraíso para homens e animais do passado, frisa.
Ao último surubim de Itaparica restou a escuridão. Vive confinado na cisterna da casa de Gilvânia da Silva Monteiro, 33 anos, do povoado de Lagoa de Itaparica, uma das comunidades tradicionais de pescadores do lugar. Antes que a lagoa secasse de vez bem em frente de sua casa, Gilvânia capturou um surubim, um piau e um mandi. Os colocou na cisterna — uma das um milhão já instaladas pelo governo federal em todo o semiárido desde 2003. Não pensa em transformá-los em refeição, pois “são mais preciosos do que isso, lembrança de um tempo bom”.

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