Um serviço que até um ano atrás ameaçava reduzir a operação parcialmente por falta de recursos básicos e que pena com a invasão de ambulantes por todos os lados e a falta de segurança. Um metrô que, apesar das três décadas de operação e da importância para o transporte da população, vive no limite. Um sistema que há muitos anos clama por atenção e prioridade.
Quem anda e conhece o metrô do Recife percebe essa situação de limite. A superlotação dos trens nos horários de pico da manhã e da noite assusta. Só anda quem precisa de verdade. Há situações desumanas. Às quais nenhum usuário deveria ser submetida – ainda mais pagando por isso. Nem os gestores locais do serviço, muito menos os do Rio de Janeiro (Companhia Brasileira de Trens Urbanos – CBTU) ou os de Brasília (Ministério das Cidades, a quem a CBTU é subordinada) teriam coragem de encarar. Os passageiros são transportados como gado nos horários de rush. Essa é a verdade. A ocupação dentro dos trens é surreal. Enquanto o razoável recomenda quatro pessoas por metro quadrado – podendo chegar a seis pessoas no pico – o metrô chega a levar 8 e até 9 pessoas por metro quadrado.
“Todo dia é isso. Os intervalos entre os trens são grandes demais e não dá conta da quantidade de gente. Sofremos muito, muito. Você já chega ao trabalho cansado, exausto, suado. Não entendo porque eles não colocam mais metrôs nesse horário de maior movimento porque é exatamente quando as pessoas mais precisam. Com a lotação, o ar-condicionado já não funciona como deveria e os vagões viram uma caixa quente”, reclama Mário Ângelo de Freitas, operador de caixa e usuário frequente do transporte. Faltam trens porque não há peças de reposição. E faltam peças de reposição porque os recursos são insuficientes. E quando eles chegam, a situação já está calamitosa. Foi exatamente o que aconteceu em 2016. No meio do ano, a situação de sucateamento do metrô do Recife chegou ao limite e foi preciso a CBTU ir à mídia gritar que iria reduzir a operação em alguns horários e fins de semana para que o País ouvisse. Na época, a CBTU aproveitou para cobrar a dívida, então no valor de R$ 48 milhões, do repasse dos recursos do VEM (Vale Eletrônico Metropolitano, o cartão do sistema de transporte do Grande Recife), que o governo de Pernambuco sempre atrasa.
O caráter social que o governo federal – gestor do metrô – sempre imprimiu ao sistema pernambucano é, como se diz, uma faca de dois gumes e o responsável pela histórica falta de recursos para operação e investimentos. A tarifa do metrô está congelada em R$ 1,60 há seis anos. Se por um lado a baixa tarifa garante a inclusão social da população, por outro impede o sistema de avançar e melhorar. Há muitos anos, a receita do metrô do Recife cobre apenas 20% do custo do sistema. Ou seja, somente para se manter, a rede metroviária pernambucana precisa contar com a cobertura do governo federal de 80% de suas despesas. Fora isso, ainda tem que lutar por dinheiro para possíveis investimentos. Nesse cenário, vive uma permanente situação de vulnerabilidade diante das contas do executivo. Em 2016, por exemplo, foi vítima do contingenciamento da verba prevista e aprovada pela Lei Orçamentária Anual (LOA). Números apontam que o déficit só para manter a operação é superior a R$ 200 milhões por ano. Em 2016 teve uma receita de R$ 70 milhões e um custo de R$ 350 milhões (incluindo a folha de pagamento de 1.800 funcionários).
A falta de equilíbrio financeiro submete o metrô do Recife ao sabor da política – talvez o maior mal para o sistema. É comum, ano após ano, a política salvar ou decretar a morte do metroviário pernambucano. Ano passado, por exemplo, quem salvou o metrô do colapso foi o pernambucano ministro da Cidades, Bruno Araújo, que conseguiu liberar R$ 61 milhões, recurso que estava previsto no PAC da Mobilidade, garantidos ainda na gestão da ex-presidente Dilma Rousseff, mas que foram retidos pelo governo devido à crise econômica brasileira. O dinheiro, inicialmente, era para investimento, mas terminou sendo liberado para custeio e, por isso, o serviço não foi interrompido. Em 2016, o metrô do Recife precisava de R$ 104 milhões somente para operar, mas com o contingenciamento, a verba caiu para R$ 51 milhões, ou seja, metade do valor.

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