De acordo com dados divulgados pela empresa, o déficit no primeiro semestre de 2025 chegou a R$ 4,36 bilhões, ampliando o rombo nas contas públicas. O termo “déficit” indica que os gastos superaram a receita gerada no período — uma situação que já se tornou recorrente nos últimos anos.
Diante da crise, os Correios anunciaram na última quarta-feira (15) que buscam um empréstimo de R$ 20 bilhões para tentar conter o desequilíbrio financeiro e garantir a continuidade das operações.
Prejuízos bilionários e aumento de custos trabalhistas
Os resultados negativos recentes fizeram de 2024 o primeiro ano com prejuízo bilionário desde 2016. Naquele ano, o déficit foi de R$ 1,5 bilhão (ou R$ 2,3 bilhões, em valores atualizados). Em 2024, o prejuízo mais que dobrou, atingindo R$ 2,6 bilhões.
Um dos principais fatores que contribuíram para o aumento das despesas foi a sucessão de reajustes salariais concedidos aos funcionários. Em 2022, sob a presidência de Floriano Peixoto Vieira Neto, a empresa enfrentou dois reajustes:
• 9,75%, retroativo a agosto de 2021, após acordo com o Tribunal Superior do Trabalho (TST);
• 10,12%, quase o dobro da inflação daquele ano, além de um abono indenizatório de R$ 1 mil por empregado.
Esses aumentos geraram impacto de R$ 820,5 milhões nas contas de 2022 e R$ 1,3 bilhão em 2023. No ano seguinte, um novo acordo coletivo concedeu reajuste de até 6,57% para 71 mil empregados e aumentou a base salarial em 30%, elevando a folha em R$ 894 milhões.
Já em 2025, o acordo mais recente previu reajuste linear de 4,11% e gratificação de 70% nas férias, o que aumentou os gastos em mais R$ 547 milhões apenas no primeiro semestre.
Dívida previdenciária e novos passivos
Em 2024, os Correios ainda firmaram acordo com a Superintendência Nacional de Previdência Complementar (Previc) para quitar uma dívida bilionária referente ao Plano de Benefício Definido (PBD), destinado a aposentadorias e pensões.
O acordo prevê o pagamento de R$ 2,4 bilhões, corrigidos pelo INPC, em 349 parcelas mensais, além de mais R$ 5,4 bilhões que serão quitados conforme os beneficiários se aposentarem.
“Taxa das blusinhas” e perda de receitas internacionais
Outro golpe nas finanças da estatal veio com a implementação do programa Remessa Conforme, criado pelo Ministério da Fazenda em 2023. A medida introduziu uma taxa de 20% sobre importações de até US$ 50, conhecidas popularmente como a “taxa das blusinhas”.
A nova legislação permitiu que empresas privadas passassem a realizar o transporte de mercadorias internacionais, quebrando o monopólio dos Correios nesse serviço. Como resultado, a estatal perdeu boa parte de sua receita nesse segmento.
Um estudo interno apontou frustração de receita de R$ 2,2 bilhões desde a implementação do programa. Em 2024, as receitas com encomendas internacionais caíram R$ 531 milhões em relação a 2023. No primeiro semestre de 2025, a queda foi ainda mais acentuada — R$ 1,3 bilhão a menos que no mesmo período do ano anterior.
Essa fonte de renda, que antes representava cerca de 25% do faturamento total, vem despencando rapidamente. Mesmo com aumento nas entregas nacionais, o crescimento interno não tem sido suficiente para compensar as perdas.
Caixa em colapso
Com despesas crescentes e receitas em queda, o caixa dos Correios despencou. Em 2023, a empresa ainda contava com R$ 3,2 bilhões disponíveis em caixa ou aplicações financeiras. Já ao fim de 2024, o saldo havia encolhido para apenas R$ 249 milhões, uma redução de 92%.
A busca por financiamento bilionário surge como uma tentativa emergencial de evitar que a estatal entre em colapso. No entanto, especialistas alertam que sem uma reestruturação profunda, o endividamento pode apenas adiar — e não resolver — a crise estrutural que ameaça um dos serviços públicos mais tradicionais do país.

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